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O que a decepção ensina sobre as pessoas e o que ela não deveria ensinar.

Confiar em alguém é uma das experiências mais bonitas e mais difíceis da vida ao mesmo tempo.

Bonita porque nenhuma relação verdadeira se sustenta sem isso. Difícil porque confiar significa aceitar que outra pessoa terá algum poder sobre o que você sente, sobre o que você espera, sobre o que você construiu junto.

Quando você confia em alguém, mesmo sem perceber, você entrega uma parte da sua tranquilidade nas mãos dela.

Acredita que ela será honesta. Que terá cuidado. Que não vai usar da sua vulnerabilidade contra você.

E quando isso não acontece, a dor tem um sabor específico.

Não é só a decepção com o que a pessoa fez. É a queda da imagem que você tinha construído sobre ela.

O que a decepção faz com a gente

Depois de uma decepção, confiar fica mais difícil.

Não porque você se tornou frio ou incapaz de se conectar. Mas porque a experiência ensinou que nem todo mundo cuida bem daquilo que recebe.

E aí o que antes soava como promessa passa a soar como risco. O que antes parecia afeto passa a parecer ameaça.

A vida vai criando essa atenção. E ela faz sentido. O problema começa quando essa atenção vira uma regra geral.

Quando alguém te decepciona, a frase que vem quase automaticamente é: "as pessoas são assim." Parece que está te protegendo. Mas está te aprisionando.

Porque aí você para de se relacionar com as pessoas que estão na sua frente. Começa a se relacionar com a sua própria ferida.

E a pessoa nem imagina o peso que está carregando antes de dizer qualquer coisa.

O que Aristóteles dizia sobre confiança

Aristóteles escreveu sobre amizade de um jeito que eu sempre volto quando penso nesse assunto.

Para ele, existem três tipos de amizade.

A baseada em utilidade, em que as pessoas se relacionam porque uma oferece algo à outra.

A baseada em prazer, em que a companhia é agradável e animadora.

E a baseada em virtude, a mais rara, em que uma pessoa deseja o bem da outra pelo que ela é, não pelo que ela oferece.

Muitas decepções acontecem porque tratamos uma relação como se ela fosse baseada em virtude quando na verdade ela era de utilidade ou de prazer.

A gente achava que havia lealdade onde havia conveniência. Profundidade onde havia afinidade passageira.

E quando a realidade aparece, a dor não é só pela traição. É pela distância entre o que imaginávamos e o que existia de verdade.

Só que Aristóteles também dizia que a confiança madura nasce da convivência. Que ninguém conhece profundamente o caráter de alguém em poucos encontros.

O caráter aparece na repetição dos gestos, não nas palavras bonitas. Aparece em como a pessoa age quando perde, quando é contrariada, quando tem poder sobre você.

A diferença entre confiar com lucidez e se fechar para sempre

Existe uma diferença enorme entre abrir espaço para as pessoas e entregar tudo sem discernimento.

Quem foi decepcionado não precisa se tornar fechado para sempre. Também não precisa fingir que nada aconteceu.

Pode aprender a confiar com mais lucidez. Permitir aproximações sem abandonar os próprios limites. Gostar sem se perder.

E para isso, algumas perguntas ajudam mais do que qualquer teoria: existe coerência entre a fala e a atitude dessa pessoa?

Ela tem consideração quando não é obrigada a ter?

Ela se alegra com o seu bem ou apenas tolera as suas conquistas?

A confiança não precisa nascer inteira. Ela pode crescer tijolo por tijolo, conforme o que você vai observando ao longo do tempo.

O que não pode acontecer é transformar toda a dor antiga em critério absoluto para todas as relações futuras.

Porque aí você não está mais avaliando quem está na sua frente. Está aplicando uma sentença que veio de outro lugar, de outra pessoa, de outro tempo.

O que aprendi com as minhas próprias decepções

Eu já confiei em pessoas que não souberam cuidar do que receberam.

E demorei para entender que o problema não era confiar. Era não ter observado com atenção suficiente o que estava ali antes de abrir tudo de uma vez.

A confiança verdadeira exige tempo. E o tempo revela coisas que a afinidade inicial esconde.

Só que aprendi também que viver com a guarda sempre alta é muito cansativo.

Você evita algumas dores, mas também evita os encontros. E os encontros, quando são com as pessoas certas, são o que torna a vida mais rica.

Confiar de novo não é esquecer. A gente não esquece as decepções, e não precisamos esquecer. Elas ensinaram algo real.

Mas aprender não é o mesmo que se fechar. É carregar o que aprendeu sem deixar que isso destrua a sua capacidade de se vincular.

Para fechar essa semana

Se você está num momento em que confiar parece arriscado demais, talvez não seja hora de forçar abertura.

Às vezes a gente precisa se recolher, se reorganizar, entender o que aconteceu.

Mas se você já passou por isso e ainda está carregando como regra o que deveria ser só uma lição, talvez valha se perguntar: quem eu estou deixando de conhecer por causa de quem já foi?

Boa sexta.

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