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State of Product reveals what AI still hasn’t solved

80% of product professionals say AI helps them ship faster, but customers aren’t seeing value any sooner. Atlassian’s State of Product 2027 explores the gains AI is delivering and the challenges that remain, from decision-making that hasn’t kept pace to gut instinct overriding customer evidence.

Durante muito tempo eu me orgulhei de saber discutir.

Não de gritar, nunca fui disso, mas de conduzir uma conversa até o ponto em que o outro desistia ou concordava só para encerrar o assunto.

Eu saía dali com a sensação de ter vencido.

Demorei anos para perceber que, na maioria das vezes, o que eu tinha vencido era o cansaço da outra pessoa, e não a questão em jogo.

E que ter razão no placar não é a mesma coisa que estar certo.

Essa percepção chegou de um jeito curioso, por causa de um livro pequeno, escrito há quase duzentos anos por um filósofo que não tinha a menor paciência com a vaidade humana.

O livro se chama A Arte de Ter Razão, e o autor é Arthur Schopenhauer.

Vale contextualizar, porque a história tem um detalhe interessante.

Schopenhauer escreveu esse texto por volta de 1830, como uma espécie de manual particular, e ele nunca foi publicado em vida.

Só apareceu depois da morte dele, reunido como um tratado curto sobre o que ele chamava de dialética erística, a arte de vencer um debate independentemente de quem esteja com a verdade.

Ele lista trinta e oito estratagemas, ou seja, trinta e oito manobras que as pessoas usam, conscientes ou não, para sair por cima numa discussão.

O ponto de partida dele é incômodo justamente por ser simples.

Segundo Schopenhauer, o que está em jogo numa discussão raramente é a verdade. É a vaidade.

Ninguém suporta, com facilidade, estar errado.

Ser contrariado machuca o orgulho, e o orgulho faz de tudo para se proteger, nem que para isso precise distorcer, desviar ou atacar.

Quando li isso pela primeira vez, a minha reação foi pensar em todas as pessoas que eu conhecia que faziam exatamente isso.

Levei um tempo até a reação seguinte, a mais honesta: eu também.

As manobras que a gente reconhece de longe

Algumas das manobras que ele descreve são tão comuns que parecem escritas ontem.

Uma delas é esticar ou encolher o que o outro disse, conforme convém.

Você fala que um projeto precisa de ajustes, e a resposta vem em forma de pergunta: então você acha que nada do que foi feito presta?

Num instante, uma observação comum vira um ataque, e você passa o resto da conversa se defendendo de algo que nunca afirmou.

Outra é atacar a pessoa em vez da ideia.

Quem é você para falar disso? Você nem entende do assunto.

O argumento original desaparece, e a discussão vira uma disputa sobre quem tem o direito de falar.

Tem também a falsa concessão, que talvez seja a mais elegante de todas.

A pessoa diz que você tem razão naquele ponto, e você relaxa, se sente ouvido.

Em seguida ela usa essa concordância como degrau para te levar até onde queria desde o início.

Você achou que estava sendo compreendido e, na verdade, estava sendo conduzido.

E há o apelo ao ridículo, que funciona por um motivo biológico muito simples: quem ri, para de pensar.

Basta transformar a ideia do outro numa piada ou num meme, e a plateia passa a rir em vez de avaliar.

Há ainda o argumento de autoridade, o famoso fulano disse, usado quando falta argumento próprio e se pega emprestada a voz de alguém de peso.

Nada disso é novidade para quem passa algum tempo nas redes sociais, num grupo de mensagens da família ou numa reunião que saiu do controle.

A diferença é que, depois de conhecer o mapa, você começa a ver as manobras acontecendo em tempo real.

E, o que é pior, a vê-las saindo da sua própria boca.

O dia em que me reconheci

Existe um desconforto muito particular em perceber que você é bom em algo que não deveria estar tão bom assim.

Comecei a me observar nas conversas. Reparei que, quando alguém discordava de mim, uma parte do meu cérebro parava de ouvir e começava a montar a resposta.

Não a resposta honesta, aquela que considera o que o outro disse, mas a resposta eficiente, a que fechava o assunto.

Reparei que eu repetia uma frase do outro de forma levemente exagerada, só para ficar mais fácil de rebater.

Reparei que eu citava alguém respeitado quando queria encerrar um debate sem precisar defender a ideia com minhas próprias palavras.

Não era maldade. Era defesa.

E é esse o ponto que me parece mais valioso na leitura de Schopenhauer: as manobras raramente surgem de um plano frio de manipulação. Surgem do medo.

Medo de errar, medo de parecer menos, medo de perder um lugar que a gente achou que tinha conquistado.

A pessoa que ridiculariza o seu argumento geralmente não está vencendo, está com medo de perder.

A pessoa que desvia o assunto sente que o terreno está ficando perigoso.

Foi nesse ponto que a leitura deixou de ser sobre os outros.

Eu estava acostumado a olhar para o comportamento alheio como um defeito de caráter, e passei a vê-lo como um sinal.

Quem se defende com ironia está dizendo, sem palavras, que se sente exposto.

Quem eleva o tom está avisando que o assunto encostou em algo que importa.

Reconhecer isso não obriga ninguém a concordar, mas devolve uma dose de paciência que eu não tinha, e paciência, numa conversa difícil, vale mais do que qualquer argumento brilhante.

Isso muda bastante o jeito de ouvir. Quando alguém me ataca, hoje consigo me perguntar o que essa pessoa está temendo naquele momento. Nem sempre ajuda a resolver a discussão, mas quase sempre ajuda a não entrar nela do jeito errado.

Ver o truque é perder o susto

Schopenhauer não escreveu aquele texto para ensinar a manipular.

Ele próprio dá a entender que o conhecimento das manobras serve principalmente para se defender delas. E esse me parece o uso mais sensato.

Existe uma regra curiosa na manipulação pela palavra: ela só funciona na sombra.

O truque tem poder enquanto você não percebe que ele está sendo usado.

A partir do momento em que você enxerga a manobra, ela perde a força, porque o encanto depende de passar despercebida.

É como descobrir como funciona o truque de mágica.

A graça diminui, mas em compensação você nunca mais se deixa enganar pelo mesmo gesto.

Mais do que isso, a leitura me deixou uma pergunta que uso até hoje antes de entrar numa discussão: o que eu quero aqui, ter razão ou entender?

As duas coisas são legítimas, mas raramente caminham juntas.

Quem quer ter razão escuta para refutar. Quem quer entender escuta para aprender.

O resultado de cada postura é muito diferente, e quase sempre a segunda deixa a relação em melhor estado do que a primeira.

Escolher as batalhas

Existe uma coisa que ninguém conta sobre vencer discussões: o custo.

Cada vitória por esgotamento, cada debate ganho na base da ironia, deixa uma pequena conta pendente.

A pessoa que perdeu não esquece.

Ela pode até se calar, mas guarda a sensação de ter sido atropelada, e isso aparece depois, de outras formas, em relações que esfriam sem que ninguém saiba exatamente por quê.

Hoje penso que o verdadeiro poder numa conversa está, muitas vezes, em não reagir.

Observar. Deixar o outro ter a última palavra e sair dali com a consciência tranquila de ter entendido tudo o que aconteceu.

Isso parece derrota para quem foi treinado a medir sucesso pelo placar, mas é uma forma de força que não precisa de plateia.

Em ambientes onde convivo com muita gente, como as reuniões do BNI ou do Rotary, vejo bem essa diferença.

Os mais respeitados do grupo raramente são os que ganham todos os debates.

São os que sabem quando vale defender uma posição e quando vale deixar passar. Ouvem mais do que falam e, quando falam, as pessoas escutam.

Vivemos uma época em que todo mundo quer ter razão ao mesmo tempo.

As redes viraram arenas, os comentários viraram ringues, e a vaidade digital ganhou um palco permanente.

Nesse cenário, quem consegue se manter fora da disputa, sem fugir dela, tem uma vantagem rara: enxerga a conversa inteira enquanto os outros só enxergam o próprio lado.

O que levei disso

Não virei uma pessoa que nunca discute, e acho que isso nem seria desejável.

Há momentos em que discordar com firmeza é necessário, e há causas que merecem ser defendidas até o fim.

A diferença é que hoje tento defender a ideia, não o ego. E quando percebo que estou começando a usar uma das manobras, tento parar no meio e voltar para o assunto original.

Falho com frequência.

Ainda me pego esticando a frase do outro, ainda sinto a vontade de fechar o debate com uma tirada esperta. Só que agora eu noto.

Notar já é metade do caminho, porque cria aquele pequeno espaço entre o impulso e a ação, onde cabe uma escolha.

No fundo, a lição que mais me marcou é que a arte de ter razão, lida do jeito certo, não é sobre dominar os outros.

É sobre dominar a si mesmo. Controlar a vontade de vencer a qualquer custo, reconhecer o próprio medo disfarçado de argumento, e aceitar que, às vezes, entender vale mais do que ganhar.

Se eu pudesse deixar uma única pergunta com você, seria esta: na última discussão que você achou que venceu, o que foi que você realmente ganhou?

Boa sexta.